quarta-feira, 10 de junho de 2009

Agência Folha, Santos, 1997

Show dos 'Raimundos' só tinha uma porta aberta, dizem fãs.



Doze pessoas que estavam no show da banda Raimundos entrevistadas neste domingo pela Agência Folha afirmaram que havia apenas uma porta aberta na saída do show de sábado, em Santos (SP), onde sete pessoas morreram e pelo menos 60 ficaram feridas.

Os corrimões dos dois lados da escada de acesso ao ginásio não resistiram à pressão causada pelo volume de pessoas e quebraram, causando a queda e o esmagamento de mais de cem pessoas.

''No momento em que o cantor se despediu, havia apenas uma porta aberta'', disse Marcelo Ferreira, 31, uma das vítimas do acidente. Ele teve luxação na perna e desmaiou na escadaria.

As cerca de 4.000 pessoas acumularam-se numa única porta de três metros de largura. Segundo os adolescentes, os outros quatro acessos só foram abertos depois que tudo já havia acontecido.

Em comunicado ao público, a diretoria do Clube Regatas Santista, onde aconteceu o show, afirmou que as quatro portas de saída estavam abertas e disse não saber o porquê de o público ter se concentrado em apenas uma. Cinco pessoas continuavam internadas neste domingo na Santa Casa de Santos, uma delas em estado grave.


Agência Folha, Santos, 09/11/97


O Ouro dos Raimundos - Showbizz [1995]



Uma banda brasileira que prima pelo intenso barulho das suas músicas, usa e abusa de palavrões nas letras e faz uma mistura estranha de hardcore com música nordestina normalmente estaria fadada a circular apenas em guetos alternativos. Com os Raimundos a história foi diferente.

Embalada pela canção erótico-porno-gráfica "Selim", a banda estourou de norte a sul do país, dominando as paradas das rádios e tornando-se o maior fenômeno musical de 94. As 120 mil cópias do primeiro disco, lançado pelo selo independente Banguela e distribuído pela gravadora Warner, esgotaram-se rapidamente nas lojas e são a melhor prova de que o cenário pop, o público e os formadores de opinião estão mudando.

Os Raimundos arremataram todos os prêmios dados pela mídia no ano passado. Mas a coroação definitiva veio agora. Na votação dos leitores, a banda se consagrou como a grande vencedora do prêmio BIZZ 94.

Os Raimundos venceram nas categorias melhor grupo, disco e clipe nacionais batendo nomes consagrados como Sepultura e Legião Urbana.

O sucesso do grupo, lançado pela BIZZ em 93, é fácil de explicar. A zoeira dos quatro garotos de Brasília chegou para revelar uma nova geração. Sem sotaque americano e resgatando uma brasilidade esquecida no cenário pop nacional, os Raimundos se transformaram na grande ponta de lança de um novo momento do jovem no Brasil. Entendendo o que está cantando e contagiado pelo bom humor e irreverência das letras do grupo, o público - com telefonemas e cartas - colocou na marra os Raimundos nos primeiros lugares das FMs de massa que, até então, praticamente só cediam seus espaços ao bate-estacas americano.

No meio dessa revolução raimunda, Fred, Digão, Canisso e Rodolfo riem. No entanto, é fácil perceber na personalidade dos caras que, mesmo que as coisas não estivessem indo tão bem, estariam rindo do mesmo jeito.

Faz parte do espírito de cada um deles, uma molecagem roqueira que não se vê por aí. Talvez por isso não se ache boas bandas de rock em cada esquina.

A história conta que o sucesso de alguns grandes nomes do showbiz estão vinculados - além do talento, é claro - a um trinômio básico: prêmios, escândalos (sexuais de preferência) e problemas com a justiça. Os Raimundos em pouquíssimo tempo conseguiram tudo isso. Parece que o caminho da banda começa a ser traçado.

Num flat simples (pago do próprio bolso) próximo ao centro de São Paulo, os Raimundos estão reunidos no apartamento do baterista Fred. Eufóricos, eles contam as histórias que viveram no primeiro ano em que saíram em busca do seu ouro e rodaram mais de 30 mil quilômetros pelo Brasil fazendo shows. Ao todo foram sessenta em sete meses. "Eu já sabia que o Brasil é grande, mas conhecer via terrestre... São várias etnias num mesmo país, mas no fundo é mundo igual. Tem uma música do Bob Dylan que diz que só existem doze tipos de pessoas no planeta. O resto são repetições dessas doze. Eu acredito nisso, viaja Canisso.

A trajetória dos Raimundos em 94, como toda banda que se preze, foi praticamente toda na estrada. Em alguns casos, até em ônibus de linha, como a turnê pelo Nordeste. No melhor estilo pau-de-arara, a rodada pelo país enriqueceu a vida de cada Raimundo e aumentou consideravelmente o número de experiências sexuais de cada um.

Sem o menor constrangimento, eles revelam que o relacionamento da banda com as fãs vai muito além de apenas dar autógrafos. "A gente vem conhecendo muita mulher e...", tenta falar Fred. "A verdade é que estamos comendo adoidado e isso é o bicho!", entrega Rodolfo. "Acho que o músico de rock só toca por causa disso mesmo. Dinheiro? Vem o governo e rouba". completa.

Entre casos com mulheres, lembram com orgulho de um show em Curitiba em que um batalhão de meninas insistia em colocar a mão por baixo da bermuda deles. "Meu irmão, a gente tava no palco e as garotas ficavam pegando na rola da gente", conta Rodolfo. "O palco era pequeno e várias garotas estavam sentadas na primeira fila. Elas iam chegando perto, metendo a mão por dentro da calça...", descreve Digão. "Não dava para cantar!", interfere Rodolfo. "Em compensação, depois do show foi uma festa". "As groupies são as melhores coisas que acontecem na estrada. Elas invadem os hotéis, dão pra todo mundo e fazem a alegria da galera. Elas são extremamente gente boa e se não fossem elas não existiria rock'n'roll. Teve uma vez que foi maravilhoso. Eu já tinha transado a noite inteira, fui dar uma passada no quarto de um roadie e tinham mais sete meninas me esperando", continua Rodolfo, e filosofa: "Tem coisas na vida que nada te tira, uma experiência bem-sucedida é uma delas.

Trepada e tatuagens, por exemplo, são coisas eternas e nenhuma repõe a outra. Aproveite todas aquelas que estiverem no seu caminho".

O vocalista Rodolfo, segundo a própria banda, é o mais ativo sexualmente falando. Ele se manifesta com empolgação quando o assunto é sexo. É quase um obcecado pelo assunto. "Eu ouvi a minha vizinha dando ontem. Só que no apartamento moram só duas mulheres. Fico achando que elas são lésbicas. De qualquer forma, a janela do meu banheiro dá para o banheiro delas...". revela. Não é preciso dizer mais nada.

As sacanagens que você ouve em letras como "Selim". "Puteiro em João Pessoa", entre outras, são absolutamente espontâneas e fluem normalmente no espírito moleque do grupo. "A gente não fala essas putarias a sério, é tudo tiração de sarro. Algumas mulheres pensam que somos machistas, não temos senso de humor", comenta Fred. "Pelo amor de Deus! Os Raimundos são uma grande brincadeira de moleques de 13 anos", indigna-se Digão.

Essa indignação, porém, transformasse em piada entre eles, quando o problema fica supostamente sério e as "baixarias" de "Selim" e cia, são praticamente censuradas em rede nacional. Na verdade, o grande rolo em torno do conteúdo pesado das letras dos Raimundos ainda está dando muito pano para manga, principalmente no sul do país. Na cidade de Santo Angelo, no Rio Grande do Sul, "Selim" foi proibida de ser executada nas rádios depois de determinação do juiz de menores local. Em outras cidades brasileiras, "Selim" recebeu na rede Transamérica um bip quando eram pronunciadas as palavras "vagina" e "bunda". Segundo a direção da rádio anunciantes no sul do país estavam reclamando da linguagem chula usada nas músicas executadas na emissora.

Esse "palavreado pornográfico", para a professora Maria Aparecida Machado, pedagoga da Escola Estadual Presidente Costa e Silva em Porto Alegre, é prejudicial à educação dos adolescentes e distorce valores como o amor e o carinho, transformando-os em pura pornografia. "O descobrimento do corpo e do sexo no adolescente é a causa do interesse nessa espécie de música.

Não é uma forma de amor consciente. "As moças podem ficar grávidas e os moços não assumem nada depois", defende a professora. "O grupo nos chamou a atenção porque todo o colégio canta as músicas, inclusive os filhos dos professores."

Os Raimundos acham graça disso tudo. Antes de assinarem contrato com o selo Banguela, a banda recebeu várias propostas de outras gravadoras. Segundo diz a lenda, numa reunião com os cabeças da Sony Music, os quatro Raimundos deixaram os executivos da companhia falando sozinhos quando foi colocado que, para fechar o acordo com a multinacional, os Raimundos teriam que abrandar o conteúdo das letras e diminuir a intensidade do seu som.

Para o diretor artístico do Banguela, Carlos Eduardo Miranda, o grande trunfo do Raimundos é exatamente a irreverência. "Eles são autênticos ao extremo. Quando eu ouvi pela primeira vez, chapei na hora. Os Titãs e o Jack Endino (produtor de Titanomaquia e de Bleach do Nirvana) também", lembra. "A sacanagem e a surpresa são fundamentais para os Raimundos. "Selim" originalmente não ia entrar no disco, foi gravada às pressas na última hora. Na versão acústica, os Raimundos são só o Rodolfo e o Nando Reis (Titãs)", revela.

A polêmica e tão falada "Selim" surgiu num rolé que a banda dava no Fusca do Canisso na autovia W3 em Brasília. "Um dos melhores programas no Planalto Central é sair no final da tarde pelas pistas livres, dirigindo devagar e fumando maconha", conta Canisso. "A visão era maravilhosa. O sol se pondo e aquelas gostosas andando de bicicleta. Um amigo nosso começou a cantarolar o comecinho e o resto veio rapidinho", lembra Digão. "Tem um vídeo do começo da trajetória dos Raimundos que retrata tudo isso. É meio que um arquivo secreto da banda", anuncia Fred.

Brasília ainda traz saudades e lembranças aos Raimundos. A cidade, considerada um pólo carente em entretenimento, é defendida pelos quatro filhos do planalto que preferem ver só o lado bom da capital. "Brasília é um liqüidificador cultural e isso é muito legal para a população da cidade. É criado um estigma que na cidade não há nada para fazer. É mentira!", fala Fred.

Como se imagina, a adolescência dos Raimundos foi mesmo bastante movimentada. Eles dividiam seu tempo entre música, colégio e diversão. O item diversão inclui casa de amigos gringos, cinema e acidentes de carro. "As pessoas se matam no trânsito em Brasília. Eu e o Rodolfo capotamos o meu extinto Fuscão e depois fomos ao cinema", lembra Canisso. "Eu tava ensinando o Rodolfo a dirigir e entrei no pau numa curva, para mostrar como é. Dei uma rodada animal e capotamos de uns cinco metros de altura. Como saímos ilesos do tombo e tínhamos combinado com o Digão no cinema, fomos para lá", conclui. "Eu tava no cinema vendo o filme quando escuto: "Digão! Tô aqui. Capotei o carro", diz Digão.

A perda total do Fusca e a grana do ferro velho deram origem ao baixo que Canisso usou até o fim do ano passado.

Até o reconhecimento do público no meio de 94, os Raimundos praticamente não receberam o apoio da família. Ao contrário, o fato de os filhos se ocuparem numa banda de rock não era bem visto pelo familiares. "É engraçado que no começo só o meu pai é quem dava apoio", lembra Fred. "Agora tá todo mundo feliz... O Canisso ganhou até um superbaixo Fender Jazzbass do pai dele." "Tem mais: teve época que eu achava que ninguém gostava de mim na família deles. Tinha certeza que neguinho ficava: 'pô, qual é a desse cara que fica levando a sério essa história de banda de banda de rock' , conclui Fred.

Com grana emprestada e um punhado de fitas demo na mão, os Raimundos vieram para São Paulo em meados de 93.

As fitas rapidamente foram divulgadas e tal; os mais descolados disputaram a tapa os primeiros exemplares de música raimunda gravada.

A mistura esporrenta de Luiz Gonzaga com Ramones, segundo a banda, é fruto dos genes paraibanos de Rodolfo. "Meus pais são paraíbas e deu para assimilar alguma coisa". Os 2 mil quilômetros que ligam Brasília a Paraíba eqüivalem proporcionalmente à distância percorrida pelos espermatozóídes do saco do meu pai até o óvulo da minha mãe", define o paraibinha.

Teorias à parte, a verdade é que a novidade chamada Raimundos chamou a atenção dos cúmplices do cenário pop brazuca e a banda pouco depois já estava tocando no Rio e em São Paulo.

Como migrantes que vêm tentar a vida na capital, os Raimundos, em vez de trouxas de roupa, traziam no ombro guitarras e amplificadores. "Ficamos assustados com o tamanho de São Paulo. Me dava urticária pensar na dimensão da cidade", lembra Fred. "O que a gente mais gosta daqui é o espírito de concorrência. A obrigação de ter que fazer sempre o melhor", completa Digão.

A casa do hoje diretor artístico e produtor de Raimundos, Carlos Eduardo Miranda, virou o Q.G. raimundo na ocasião. "Não tinha muito espaço e dormíamos no chão da casa do Miranda. A janela tava quebrada, entrava o maior vento", conta Fred. "Era época de frio, junho, e parecia que a gente tinha que passar por aquele carma pra saber como as coisas são difíceis", fala Canisso. "Mas a maior dificuldade mesmo, foi nos acostumarmos com os pernilongos mutantes do bairro de Pinheiros", brinca Rodolfo. "Desenvolvemos uma técnica para poder dormir", conta Fred, e com uma camiseta na mão demonstra: "Primeiro colocasse a camisa sem os braços. Pega o que sobra, cobre a cabeça e põe uma das mangas na altura do nariz". "É feita uma espécie de tromba para poder respirar. Fica tudo coberto e o bafo que sai da boca não deixa os mosquitos chegarem perto", conclui Rodolfo.

A experiência dos Raimundos em instalações, digamos, estranhas vai desde hotéis mal-assombrados a cabanas praticamente no meio da floresta amazônica. "Durante a gravação do disco, ficamos num hotel em que todo mundo sonhava com fantasmas, assassinato e o diabo. O Otto, percussionista do Mundo Livre, quando passou por lá viu um velho andando do armário até o banheiro durante a noite", diz Canisso. "Em Belém, ficamos numas cabaninhas a uns 15 quilômetros da cidade. Eu fiquei me achando o Tarzã. Era mato para todos os lados, não tinha ninguém, aí eu resolvi sair pelado pela floresta", conta Rodolfo. Atualmente, a banda procura uma casa para alugar onde possa e ensaiar com mais comodidade e sem interferência de regras de condomínio.

"Precisamos de um pico para criar as músicas sem encheção de saco. Aqui no flat volta e meia alguém reclama", diz Digão, imitando uma velha: "o som tá muito alto, tem um cheiro estranho entrando no apartamento do vizinho...''

O dinheiro raimundo arrecadado até agora com os shows e a venda do disco, segundo a banda, ainda não dá para grandes aventuras. "Tem gente pensando que os Raimundos estão milionários. Só tá se dando pra pagar o aluguel", diz Fred. "Se a banda terminasse agora, tava todo mundo fodido. Ninguém tem porra nenhuma", revela Canisso.

O contrato com o Banguela prevê para a banda uma porcentagem proporcional à venda do disco. Até 40 mil cópias vendidas, os Raimundos recebem 8% por cada disco. Dos quarenta em diante, vai para 10%. Passados 100 mil discos vendidos, o grupo recebe 15%.

O próximo grande passo na carreira da banda é resolver sua vida com as gravadoras. O acordo com o Banguela termina em março e só pode ser renovado caso o grupo assuma um compromisso com o selo por mais três anos.

A gravadora Warner, já fez uma proposta para que a banda passe a constar no cast da multinacional. Mas a princípio tudo indica que os Raimundos não vão mudar de emprego. "A major quer um artista que sempre venda mais de 100 mil cópias. As coisas podem mudar e aí é a maior pressão. Na gravadora independente não tem isso", fala Fred, o raimundo mestre que resolve assuntos burocráticos. "Não acredito que a Warner pegue os Raimundos. Se eles quiserem podem pegar, mas não é legal. Vai enfraquecer o Banguela ", sentencia Carlos Eduardo Miranda.

Com tanta movimentação, até agora os Raimundos ainda não prepararam o repertório do próximo disco, que deve ser lançado no começo do segundo semestre. "Fizemos uma música chamada ''Tora Tora''. É o sentido ao pé da letra, do que você entende por isso", conta Rodolfo. "É sem vaselina, sacou?", "No nosso processo de criação, pensamos num tema, aí geralmente saem três letras e três ritmos. Misturamos tudo e pronto", conta Canisso. "Raimundos é a banda que não está preocupada com convenções e regras. Todo mundo interfere em tudo e é por aí que o resultado fica legal", diz Fred.

Buscando sempre o novo, dando ao seu rock uma característica realmente brasileira, os Raimundos são o maior expoente entre os grupos nacionais que buscam em elementos brasileiros a chave para dar personalidade à sua música. Quem faz a atual cena pop no Brasil, percebe que o quanto mais nacional se é, mais internacional será. Essa é a velha nova ordem mundial.

Fred, Digão, Rodolfo e Canisso, antes inconscientemente e hoje totalmente conscientes, sabem disso. Mas apesar da "responsabilidade profissional" recém-adquirida, o tal sangue roqueiro que corre nas veias dos caras contínua borbulhando diversão e tesão, movido pelo poderoso afrodisíaco que se chama sucesso.

Revista Showbizz, edição 115. ??/02/1995.

Revista SHOWBIZZ - Edição 149, 12/97


"Santos dá muita sorte à gente", vibrou o vocalista Rodolfo. Era madrugada do dia 8 de novembro e o Raimundos iniciava a turnê do álbum "Lapadas do Povo" no Clube de Regatas Santista. Horas depois, a cidade talismã do grupo viraria palco de horror. O púplico, estimado em 4 mil e 500 pessoas, se espremeu diante da única saída do local, resultando em pisoteamentos e na quebra dos corrimões laterais. Saldo: 8 mortos e mais de 50 feridos. Foi a maior tragédia da história de shows no Brasil. Ganha da lendária apresentação do Legião Urbana em Brasília e tem mais vítimas que shows do Ramones, Sepultura e Midnight Oil juntos.

O presidente do Regatas, Reinaldo Gomes Ferreira, colocou a culpa na platéia. E afirmou que havia quatro portas à disposição - depois confessou que só duas estavam abertas. Mas com certeza não foram os fãs do Raimundos que decoraram o cenário do horror.

O clube santista foi cuidadosamente preparado para sediar uma tragédia. Sua permissão para abrigar shows foi renovada de maneira irregular, haviam poucos seguranças e muita bebida à disposição. "Eram quatro pontos de vendas de bebidas. Dois dentro do ginásio e dois nas imediações, vendiam de guaraná a cerveja e capeta (preparada com vodca, leite condensado e guaraná em pó), revelou o delegado Cláudio Rossi, do 3º DP (Santos), que apura o caso.

A revista na entrada do ginásio foi quase inexistente. "Eles gritavam: Ingresso na mão! E mandavam a gente entrar", confessa o adolescente Fábio Farinella. A Rockstrote, produtora do evento, não contratou sequer um grupo forte de segurança para um acontecimento desse porte (fala-se em 10 homens para um público gigante e agitado).

A abertura do show ficou por conta do grupo baiano Catapulta. Eles entraram por volta das 23h30 e esquentaram a platéia para o Raimundos - que começaram a tocar à 1h30 da manhã. Canisso, Digão, Fred e Rodolfo afirmam que foi um dos melhores shows que eles deram na vida. A apresentação terminou às 2h50, com "Eu Quero Ver O Oco". Foi então que a tragédia se desenhou. O público se dirigiu à única saída disponível do local. A aglomeração deu espaço a um violento empurra-empurra. Quem tropeçava era pisoteado pela multidão. Para piorar, um fio elétrico localizado na entrada do ginásio se soltou e começou a dar choque no pessoal que saía. Sobreviventes descrevem a cena como "o movimento de uma onda". Houve quem desse mosh em cima do povo que se espremia, pensando se tratar de alguma brincadeira.

O número de pessoas sufocadas era tanto que os dois corrimões laterais cederam. "Acho que foi a salvação de muita gente. Senão haveria muito mais acidentados", aposta o delegado Rossi. Por outro lado, o corrimão selou o destino de outros adolescentes. "Eu vi uma menina cair de uma altura de 5 metros. O ferro do corrimão caiu em cima dela", relata Farinella.

Não havia equipe de socorro à disposição. "A imprensa chegou antes do salvamento", diz uma testemunha. Muitos jovens foram levados de camburão para os hospitais mais próximos. O Regatas parecia um campo de guerra. "Havia uma poça de tênis. Eu arregacei as mangas e tirei uma porção de gente da confusão. Quanto mais eu salvava, mais pessoas iam caindo da escadaria", lembra Farinella.

Os fãs do Raimundos que ficaram no local - e que em nenhum momento foram informados de uma saída alternativa - se desesperaram e tentaram arrombar as outras portas restantes com chutes. Só então foram abertos outros quatro portões, inclusive o reservado à saída de artistas. O grupo Raimundos soube do acidente ainda no Regatas. Digão sentou na escada e começou a chorar. "A gente chegou a ligar do hotel para o pronto socorro", emociona-se o guitarrista.

No dia 10, o grupo deu uma entrevista coletiva na sede da WEA em São Paulo. Visivelmente emocionados, eles cancelaram os 14 shows restantes da turnê. "Este ano não tem mais show do Raimundos. A gente esta consternado porque nos consideramos a continuação do público em cima do palco. Perdemos 7 irmãos", diz Rodolfo (a oitava vítima faleceu após a entrevista). Para Digão, a desgraça causou o mesmo impacto da perda do irmão mais velho, morto num desastre de moto.

Em cartas e e-mails enviados à redação de Showbizz, pessoas que estiveram no show do Raimundos em Santos eximem o grupo de qualquer culpa. O mesmo comportamento foi dotado pelas mães dos adolescentes - muitas delas perderam os filhos no local. O caso esta sendo apurado no 3º DP de Santos. Enquanto isso, os diretores do Clube de Regatas Santista preferem colocar a culpa no público, dizendo que foi "brincadeira inconsequente...".




Revista SHOWBIZZ - Edição 149, 12/97

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Entrevista - Digão - 2009

Mais uma vez o Mundo Ibox vem trazer informações e conteúdos para todo mundo. A nossa "vítima" dessa vez foram os Raimundos. Confira a entrevista exclusiva feita com o Digão. Além da realização importante, também vocês vão conferir um papo sério, direto e divertido.



Entrevista concedida a Otávio Lamartine, do site Mundo Ibox, no dia 04/05/09.

Mundo Ibox - Ao observarmos a história do Raimundos vemos que mudanças, ao longo dos anos ocorreram, desde a saída de integrantes até mudanças no próprio som. Mas a essência, as ideologias que fundamentam a banda, continuam as mesmas?

Digão - A essência continua a mesma e cada dia mais Raimundos! A meu ver, a parte ideológica mudou um pouco, pois não vivemos as mesmas coisas do passado, falar de maconha o tempo todo já não é a minha praia, pois não fumo a 5 anos! Mas tem coisa melhor que falar de mulher!!?? Rsrsrsrsr isso continua a mil por hora!!!

Mundo Ibox - O lançamento do álbum "Só no Forévis", foi notoriamente um marco na carreira do Raimundos, tido como o cd de maior sucesso. Contudo, foi também concomitante ao inicio da “grande crise”. Como você associa estes dois acontecimentos tão marcantes e ao mesmo tempo tão antagônicos?

Digão - O "Só no Forévis" não foi o “causador” da “Grande Crise”, o Raimundos sempre foi uma banda problemática desde o começo, por ser uma banda com grande energia é normal que se tenha grandes problemas também, sempre foi assim! Sempre brigamos, mas na época do “Só no Forévis” a gente parou de brigar, e assim se acumulou coisas que antes eram lavadas na hora e culminou na ruptura em 2001. Mas foi uma ruptura unilateral onde os fracos não sobrevivem... Foi ótimo aquele tempo, mas hoje vivemos uma fase muito bacana que é de um (re) começo de banda. Não considero a fase de 2001 até a volta do Canisso em 2007, o nosso recomeço e sim agora que todos estão remando na mesma direção e com boas perspectivas pro futuro.

Mundo Ibox - Como foi gravar com Marky Ramone, já que foi uma das maiores influências da banda?

Digão - Foi a realização do nosso grande sonho! O ensaio foi a coisa mais louca da minha vida! Eu puxava uma atrás da outra e ele vinha com a batida original!!!! Foi Demais e até hoje eu lembro limpa e claramente na minha mente.

Mundo Ibox - A saída de Rodolfo ainda faz falta não só nas músicas, mas também no relacionamento que havia na banda?

Digão - O Rodolfo pra mim foi o melhor compositor que eu já conheci, ele faz falta sim e tenho saudade “daquele” Rodolfo que eu conhecia infelizmente esse não existe mais... É louco, mas é real! Hoje eu posso dizer que o relacionamento é bem mais sadio, pois estamos muito tranqüilos em relação a tudo! Vamos sempre animados pra fazer show, como se fosse uma excursão de 8ª série.

Mundo Ibox - Muitos riffs do Raimundos dos primeiros álbuns, como exemplo o CD "Lapadas do Povo", tinham uma levada mais pesada, alguns tendendo ao thrash e até ao death metal em certas passagens. Quais seriam as influências de bandas nesse estilo dos membros na banda naquela época?

Digão - A gente escuta sempre as mesmas coisas desde sempre! Somos Oldschool sempre! O Canisso sempre foi o mais “novidadeiro” da galera e sempre mostrava coisas bacanas! Conheci o SOAD através dele... Mas engraçado que naquela época estávamos escutando Sublime direto! Não sei como fizemos um disco tão tosco e agressivo! Ahahah!! Queríamos fugir do engraçadinho que tava rolando.

Mundo Ibox - Existe a possibilidade de uma turnê com a formação original?

Digão - Minha porta está aberta pras coisas boas! Mas só se for da vontade de todos! Sei que o Rodolfo não está preparado pra isso...

Mundo Ibox - Sobre os rumores que sairia ou saiu um CD da banda no início de 2009, existe mesmo essa possibilidade?

Digão - Um DVD Ao Vivo eu acho o mais apropriado...

Mundo Ibox - O Raimundos ainda tem a pretensão de alcançar a grande mídia novamente ou prefere continuar no meio underground?

Digão - Sempre fomos sem pretensão e pretendo continuar assim. O que é a grande mídia hoje? Não sei se o Raimundos se encaixaria nesses padrões de hoje, jamais vou pintar as minhas unhas pra seguir modinha! Nosso hardcore é visceral e verdadeiro e se a grande mídia gostar não vejo mal algum.

Mundo Ibox - O que os fãs do Raimundos podem esperar para 2009 e/ou projetos futuros?

Digão - Rock na Veia!!! Sem Afrouxos!!!!

Mundo Ibox - O que você vê como aspectos positivos e negativos no cenário do rock, no Brasil atualmente?

Digão - Realmente estamos vivendo uma grande entressafra de rock, pelo menos na minha percepção, pois gosto de rock visceral que me prega na cadeira e tira o meu fôlego! Até agora poucas bandas me deram essa sensação...

Mundo Ibox - O que achou da proposta do site de trazer informações tanto das bandas já consagradas quanto das desconhecidas, lado a lado?

Digão - O Rock precisa de espaço, tanto pras grandes como pras que estão começando, acho ótima a iniciativa do site porque a nossa grande mídia só sabe falar mal e não tem a capacidade de encontrar novos talentos! Não sei se é por preguiça ou por babaquice mesmo, mas os novos talentos estão por aí esperando pessoas como vocês darem o devido valor.

Pedro Frasson

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Entrevista - Rodolfo Abrantes - 2002 - Parte 2

Na segunda parte da entrevista com Rodolfo Abrantes, ele fala sobre sua saída dos Raimundos e o que o inspirou a compor algumas faixas do novo álbum.

Entrevista concedida a Marcos Marcal, do Clique Music, no dia 11/03/2002.



Cliquemusic – Quando você anunciou sua saída dos Raimundos, já havia alguma parte desse material novo pronta?

Rodolfo – Não tinha nada, comecei a compor com o Bob um mês depois. A primeira música se chamou Estreito e foi composta lá na casa dele, meio na brincadeira. O que eu tinha em relação a planos é de que um dia eu voltaria a gravar, ainda mais porque era contratado da Warner e isso acabaria acontecendo mais cedo ou mais tarde. Minha intenção era ficar o ano passado descansando e só retomar as atividades em 2002. Acabou que rolou mais cedo, mas foi de uma forma natural, mais pela diversão mesmo. Todas as composições do CD foram feitas após a minha saída dos Raimundos.

Cliquemusic – E quais as que vocês caracterizaria como as mais emblemáticas do disco?

Rodolfo – As mais fortes são De Olhos Abertos, De uma Só Vez, Três Reis, Quem Dá Mais, Horário Nobre e Cegos de Jericó.

Cliquemusic – Você fez críticas aos meios de comunicação em Quem Dá Mais e Horário Nobre. O que te motivou a falar sobre isso?

Rodolfo – A mídia fez uma verdadeira bagunça na minha vida e deu para ver quais são as verdadeiras intenções de quem está ali no comando. Eles manipulam muito e não interessa se você está falando a sua verdade – se ela não for interessante, eles inventam uma que seja. Vi muita sujeira, muita má intenção, muita maldade, exagero... Então foi uma ocasião em que pude saber muito bem com quem eu estava lidando – de uma forma dolorosa, mas eu fiquei sabendo como realmente funcionava a mídia. E deu para ver que é uma coisa meio picareta e eu não curto muito. A divulgação desse disco vai se concentrar muito mais pela mídia impressa mesmo e pelos shows. Na TV tem muito pouca coisa que presta! Eu posso citar o Musikaos da TV Cultura, um programa muito maneiro. Tem o Clemente e o Gastão, dois caras que curtem som de verdade. É um programa que tem pensamento, rola a verdade ali. A banda toca e tem um publico de verdade, que agita à beça quando quer. Também se apresentam artistas plásticos, poetas, muita coisa legal... É um programa que vai contra tudo isso que existe de ruim na TV atualmente, essas apelações para o pessoal mostrar e tudo.

Cliquemusic – Você se associou a outras figuras do meio musical no rap Três Reis e nas duas músicas mencionadas logo acima você questiona a influência da mídia. Mas, por outro lado, um dos teus parceiros, o Xis, abriu uma concessão ao participar do reality show do SBT. Qual a sua opinião a esse respeito?

Rodolfo – Não julgo as pessoas, cada um faz suas próprias opções – e todo mundo tem liberdade para isso. Se fosse o meu caso, eu não iria para a Casa dos Artistas, mas é uma escolha minha. Não gosto de ser observado nem quando ando na rua, não gosto de gente me olhando e, conseqüentemente, não seria legal ficar por três meses em um lugar com câmeras me filmando. Conheço o Xis e a Syang, ela desde os tempos de Brasília, e o pessoal é muito gente boa.

Cliquemusic – Você está renegando o seu passado. Mas por outro lado, o teu trabalho com os Raimundos ainda te proporciona algum dinheiro que, com certeza, lhe deu meios para fazer esse seu novo projeto – mesmo renegando-o. Então gostaria de saber como você lida com essa contradição.

Rodolfo – Na boa, não estou renegando nada! Acho que só construímos nosso presente por causa do passado. Então não me arrependo de nada do que fiz e agradeço a Deus pela oportunidade de passar por tudo aquilo – tanto as coisas boas, quanto as ruins. É na adversidade que você mais aprende sobre a vida, mas se você olha para o futuro, então não pode ficar preso ao passado. Ele é importante e é legal você saber de onde você veio, mas não pode rolar uma corrente te prendendo ao passado. Saí dos Raimundos porque não queria mais tocar aquelas músicas, então não poderia cair na estrada e recorrer a esse repertório nos shows. É uma coisa que não vai existir! O passado é passado e não preciso ficar preso a ele. Comecei uma banda nova, então agora é tudo novo. Agora, quanto à questão financeira, acho que cada um possui seu estilo de vida e posso dizer que o meu é bem barato. Nunca fui gastador e ainda possuo as minhas economias. Não sou um cara rico, mas também não preciso de muito dinheiro para viver! Então estou tranqüilo e não preciso comercializar o meu trabalho agora porque a minha intenção não é viver cheio da grana. O Brasil é um país pobre e miserável e é meio vergonhoso você ser rico e tão ganancioso num país desses.

Cliquemusic – Em uma das canções do disco, Cegos de Jericó, você diz que deu adeus ao homem triste. Atualmente pode-se dizer que você é um cara feliz com essa "vida nova"?

Rodolfo – A felicidade plena é algo que ainda ninguém encontrou. Mas estou na busca e, com certeza, mais feliz do que eu era.

Cliquemusic – A primeira música que os Raimundos gravaram após sua saída foi Sanidade, que constava na demo de vocês. E é claro que podemos ler um texto de várias formas diferentes, mas algumas pessoas podem achar que se trata de uma crítica velada à sua mudança de atitude e sua saída da banda. Você vê a coisa um pouco por esse lado? Como você lida com essa primeira manifestação musical do pessoal desde a sua saída?

Rodolfo – (interrompendo) Com uma música minha, falando sobre mim! Acho que esse foi o melhor momento que Sanidade poderia ser lançada. Pela primeira vez, ela vai fazer algum sentido! Acho que a gravação ficou ótima e é a melhor música dos Raimundos em toda a carreira. O resultado ficou maravilhoso!

Cliquemusic – Você considera isso uma discreta alfinetada a suas atitudes?

Rodolfo – Mas é claro! O que você poderia esperar de quem não é seu amigo? É isso, não foi nenhuma novidade para mim. Além do mais, acho isso muito bom porque confirma quem são as pessoas. O problema não é você ter inimigos, é você não saber quem eles são. E isso é sempre bom porque você passa a não dar mais brechas. Um inimigo declarado fica lá no canto dele, enquanto você fica no seu. Agora um inimigo disfarçado senta na sua mesa, entra na sua casa e é muito pior você dar brecha para ele na sua vida. Então é muito bom que as coisas fiquem assim bem transparentes. Mas posso dizer que o Canisso é meu amigo, o cara mais maneiro que tem ali. A atitude não partiu dele, ainda temos contato!

Cliquemusic – O seu disco reflete bastante a sonoridade dos Raimundos, principalmente a da época do álbum Lapadas do Povo ouvir 30s (N.R.: terceiro álbum dos Raimundos e o de menor sucesso comercial entre os discos da banda, decorrente da mudança nos temas abordados pelo grupo). Seria uma forma de você se manter ligado ao passado?

Rodolfo – Acho que é uma coisa natural, eu compunha a maioria das músicas dos Raimundos e não mudei a minha forma de compor. Rolou um amadurecimento, isso é visível, mas não quis mudar de estilo. Meu estilo é esse e compunha assim desde a época dos Raimundos. É impossível não rolar nenhuma semelhança.

Cliquemusic – Você, de repente, estaria tocando esse repertório novo com os Raimundos, caso a banda aceitasse essa mudança de rumos? Ou uma coisa não tem nada a ver com a outra?

Rodolfo – Não, acho que a situação não rolou só por questões musicais. A amizade já estava meio fria mesmo e tudo isso que comentamos antes só confirma o que estava rolando. Acredito que a amizade verdadeira sobrevive a qualquer situação, é possível você ser amigo de uma pessoa que trabalha com você e, a partir do momento que não se trabalha mais juntos, é possível manter a amizade no dia seguinte. E se não é meu amigo hoje é porque nunca foi! Para mim, está ótimo!

Cliquemusic – Qual a sua opinião sobre o disco Éramos Quatro (N.R. primeiro lançamento dos Raimundos após a saída de Rodolfo)? Estava mais para caça-níqueis ou foi uma necessidade de os caras respirarem um pouco e elaborarem essa perda que foi a sua saída?

Rodolfo – Não sei, isso foi uma decisão deles! Não tenho opinião a esse respeito porque eu saí da banda.

Cliquemusic – Mas a sua imagem continuou associada à banda, a partir do momento em que você está ali, inclusive na própria capa do disco.

Rodolfo – O que eu posso fazer? Não tenho controle sobre isso! Estou em 90% do disco, mas não foi uma decisão minha. Só posso dizer que eu faria diferente, daria um tempo, faria músicas novas. Acho que a primeira impressão é a que fica, então acho que me lançaria de outra forma. De qualquer forma, eu não me vejo voltando para os Raimundos. Mesmo porque eu não quero, já que saí justamente para não cantar aquelas músicas.

Cliquemusic – Para terminar, logo após a sua saída dos Raimundos, surgiram boatos de que você teria se assustado com uma suposta maldição a rock stars brasileiros. Você deve saber do que se trata.

Rodolfo – (rindo) Ouvi cada coisa absurda! Uma das coisas mais loucas que ouvi foi de que eu estaria assustado com o que aconteceu com o Yuka e com o Herbert Vianna e que eu seria o próximo da lista. Isso é um absurdo! Imagina você como o protagonista de uma história dessas! O que você vai pensar da mídia? Só tem gente louca ali e não tenho nem o que comentar a respeito disso. Outra dessas histórias absurdas foi a de que eu teria sido exorcizado na Igreja Sara Nossa Terra de Camboriú. O mais legal de tudo é que não existe Sara Nossa Terra em Camboriú, isso que é o melhor de tudo! Tem gente muita louca nesse mundo e a internet é uma coisa que eu nunca gostei, nem tenho computador. É um meio que abre espaço para muita fraude, para muita mentira, você não tem como ter certeza de nada que está ali. Realmente, é um meio de comunicação rápido, global! Mas se você solta uma mentira ali, ninguém tem como provar que não é verdade. Vira uma bola de neve e eu estou fora desse povo, só tem gente louca aí!


Entrevista - Rodolfo Abrantes - 2004

Entrevista concedida a Revista Refletir, em 2004.



Rodolfo Abrantes foi a antítese daquilo que pais e mães não queriam para seus filhos, e ao mesmo tempo, aquilo que muitos filhos queriam ser, para desagrado dos seus pais. Desbo-cado, compunha e cantava músicas com conteúdo indecente e repleto de palavrões e imoralidade. Depois de oito anos de carreira com os Raimundos; de seis discos que juntos venderam mais de 2,5 milhões de cópias, e de ter estado drogado a maior parte do tempo de carreira, segundo as suas palavras, – precisava fumar maconha para sentir fome e de viver como um autômato, Rodolfo Abrantes, foi alcançado dentro de casa pelo Evangelho. Sua esposa Alexandra Horn começou a fazer cultos no apartamento em São Paulo e a convidar mulheres cristãs, para ali orarem. Num desses cultos, completamente drogado, Rodolfo se converteu, e a partir daí sua vida mudou. O ápice da mudança foi abandonar a banda que era um dos maiores sucessos, para espanto da mídia e dos colegas que não entenderam nada.


Refletir - Você diz no seu testemunho que vivia drogado. Tinha algum momento de lucidez?

Rodolfo - Raro. Nos momentos de lucidez estava desesperado para arrumar droga; eu não descansava com a questão da droga, só comia se fumasse maconha. Quando se está na estrada em turnê a parte legal é a hora que está tocando, no resto é tudo um saco. Hotel, seção de autógrafos, viajando no ônibus, tudo é muito chato. Eu me apoiava na droga para superar estes momentos, e qualquer que fosse a situação que estivesse vivendo, eu estava drogado, e para mim estava bom.

Refletir - Você nunca escondeu o fato de ser um drogado?

Rodolfo - Eu não pensava muito nisso não.

Alexandra Horn - Quando a gente está envolvida com isto, com o meio, não se dá conta, acha bonito estar doidão, fumar um baseado e, coitados dos que não fumassem, dos que ficavam em casa quando saímos para a balada. A gente começa a ter esta visão quando sai fora do meio; não me sentia culpada de nada. Torna-se tão amortecido pelo mundo das drogas que não dá para pensar muito a respeito. Eu não tinha vergonha nenhuma de dizer que tinha tomado um ecstasy, ou um ácido qualquer. Eu dizia até para a minha mãe; ia ter vergonha do que? Quem é drogado acha que vergonhoso é ser careta.

Refletir - Como foi a grande virada da tua vida?

Rodolfo - Deus virou bem rápido. Eu conheci a Alexandra em 1994, e nos encontrávamos quando eu ia tocar perto da cidade dela, e ficamos três anos sem nos ver. Ela foi morar em Londres e viver a vida dela e eu a minha para o meu lado. Até que a gente se reencontrou em 2000 e fomos morar juntos, estávamos vivendo aquele sonho de ficar juntos, pois “cozinhávamos” há sete anos aquele namoro que não acontecia; éramos muito especiais um para o outro. Mas, estávamos num nível de autodestruição muito alto, nos drogávamos muito, sem parar.

Refletir - E a sua conversão, quando se deu?

Rodolfo - Olha, foi Jesus que fez o encontro forçado com a gente. Dizem que se não é pelo amor, é pela dor. Começamos a brigar muito lá em casa, por qualquer coisa, por qualquer motivo. Eu tinha muito ciúme da Alexandra, que era hostess numa boate, e não gostava daquilo. Todo mundo em cima, até que a relação começou a acabar, fomos nos ferindo muito com palavras, e ela se voltou para Deus.

Refletir - Alexandra, você já era convertida?

Alexandra Horn - Eu tinha sim, um contato com o Evangelho. Minha família era cristã quando eu nasci, e na infância eu freqüentei uma igreja, mas, depois de um tempo, eles se desviaram. Com quinze anos eu aceitei Jesus, mas ia de vez em quando à igreja, e continuava com a vida toda errada; achava que ia ser crente depois dos trinta anos. Quando as coisas pioraram, eu falei com Deus que se Ele desse um jeito na minha vida e do Rodolfo, eu nunca mais ia largá-Lo. E aí Deus transformou nossas vidas.

Refletir - Quanto tempo duraram esses cultos?

Rodolfo - Sete semanas, mas nas três primeiras eu não estava, ia para a praia surfar.

Refletir - Alexandra, como você conheceu essas mulheres?

Alexandra Horn - Elas iam lá orar por mim, tinha uma pastora no Rio Grande do Sul, que cuidava de mim, e quando eu estava mal ligava para ela, e foi ela que me deu os telefones dessas mulheres, e elas resolveram ir lá em casa orar por mim. Tudo isso sem o Rodolfo junto e durou cerca de três meses. São mulheres muito humildes, muito simples.

Refletir - Qual foi o processo da sua conversão então?

Rodolfo - Foi maravilhoso. Lá pela terceira semana eu não tive tempo de preparar um plano de fuga – risos – e quando elas chegaram, eu fumava um baseado do tamanho de um charuto, e aí não deu para sair fora; elas lá cantando e orando e eu, doidão. No final daquele culto eu aceitei Jesus, e no meio da semana, cheio de dúvidas e incertezas, me telefonou a irmã Sandra que no culto não falava nada, era calada, e disse que estava orando por mim, e foi falando coisas que eu não tinha dito, aí eu fiquei com raiva da Alexandra, pensando que ela tinha contado para a mulher.

Refletir - Passados três anos da sua conversão, que lições você tira disso tudo, e quais são as suas perspectivas daqui por diante?

Rodolfo - A gente vê pelos frutos. E eles estão aparecendo. A primeira igreja a nos chamar foi a Sara Nossa Terra, e nesses cultos eu fazia o apelo e muita gente foi se convertendo ou se reconciliando com Deus. Deus com certeza não me tirou do inferno para ficar esquentando banco de igreja. Tenho um trabalho a ser feito, e Deus tem me dado forças para fazer o que Ele quer.