segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Revista Trip - Ano 12 - nº 69 1999


Na folga de seu plantão, o soldado Arthur Veríssimo ciceroneia os Raimundos num rolê pelo puteiro mais chique do Brasil.

Por Arthur Veríssimo


Canisso

Às margens da avenida Bandeirantes, na Zona Sul de São Paulo, fica localizada a casa de relax e sauna (ic. hiphiphurra), ou melhor, bordel de espetáculos e puteiro de classe A, batizado Bahamas. O templo de Eros é extremamente manjado pelos pafúncios, fazendeiros do brasilzão afora, maurícios abandonados, cantores de sertanejo e pagode bem sucedidos, jogadores de futebol e garanhões sedentos por sacanagem e mulher gostosa e bonita. Havia marcado um apontamento com o creme de la creme da contravenção do rock tupiniquim, os Raimundos. À meia-noite cravada, a campainha tocou na porta de casa. Era a gangue em adiantado estado de euforia e embriaguez. No interior do comboio, apresentações à parte, os autores do fenomenal sucesso popular "Puteiro em João Pessoa" lançaram em jogral um mantra raimundiano: "Olha Arthur, sou casado. Vê direito o que você vai escrever, certo".

Nunca havia pisado no Bahamas e nem sabia ao certo onde se localizava a grutinha dos prazeres. Conheço pelas minhas andanças e viagens diversos inferninhos e red light zone mundo afora. Agora, ser escalado para acompanhar e observar o grau de testosterona e libido da moçada foi para mim o clássico "Killing Joke". A caminho do babado, perguntei para o motorista se sabia o local do crime. O sujeito, com um olhar de Rony Cocegas, respondeu "É perto do Kilt, Wagon Plaza, doutor?". Primeiro, doutor é a benga e, segundo, va fan culo, testa de catiso. Porra, ninguém tinha idéia do local. Nossa expedição era de marinheiros de primeira viagem - eu de capitão Hadock, o parceiro rabugento de um grupo de cinco Tintins curiosos. Sosseguei a impaciência e a ansiedade e lançei "Vamos para a Bandeirantes que é por ali". Batatolina: mal viramos na avenida e as seis cabeças hipnotizadas captaram neons caribenhos do Bahamas. Uivos e demonstrações de virilidade ecoaram no furgão. Dezenas de carros importados faziam a fachada do "BH".


Paninhos e camisolas sumárias


Digão

Fomos recebidos por uma recepcionista didática e objetiva. "Vocês já conhecem o sistema da casa?". O jogral raimundiano timidamente respondeu "Não". A tiazinha, com um olhar de preceptora de colégio interno "adventista de sétimo dia" (já estudei lá), finalizou: "Custa 71 reais para entrar com direito à sauna, banho e roupão. Vocês recebem uma pulseira com um número. Para beber, e caso queiram utilizar nossas suítes no andar de cima, a hora custa 51 reais. Passou disso, é o dobro. O preço para fazer um programa com as meninas vocês decidem com elas, ok?". Boa Sorte.

Na porta, uma multidão de camisas Richardís se mesclava com gravatas recém-engomadas, paletós Giorgio Armani e Ermenegildo Zegna. Fivelões e botinhas de cowboy aceleravam o passo e batiam os casquinhos (em festa de rodeio não é bom ficar parado - o novo sucesso pentelho do maleta do Leonardo ecoava). Ao meu lado a esquadrilha da fumaça dos Raimundos, de bermudões e camiseta vencida, destoava da (aarrghhh) elegância. Imagine o encontro de Beavis e Butt-head com os engomadões da novela da Globo. Pois é, foi mais ou menos isso que aconteceu. O transe dos garanhões e pangarés foi absolutamente total. No interior, de cara, o que vimos foram quatro dúzias de gatas alucinantes cobertas por paninhos e camisolas sumárias. O nosso grupo rapidamente se esquivou dos nobres elegantes e se encaixou num canto esperando uma mesa vazia. Estado de choque diante do mulherio sarado com aquela típica carinha de anjos devoradores e safados. Os primeiros 15 minutos são de tirar o fôlego, cai a pressão no ato. Ficamos embasbacados diante do mulherio de primeira. Se segura peão é o lema.


Fred

O ambiente prima pela perfumaria típica de um Free Shop. A galinhada masculina solta as penas pra cima dos filés e pacotões femininos. Nada escapa do olhar fulminante de Rodolfo e companhia. À medida que o tempo foi passando, a descontração se instalou na moçadinha. A mulherada chegava junto para conversar e pedir autógrafo. Tentação carnal pululando diante dos sentidos. O Bahamas, cumpádi, é o maior contingente de capas de revistas já vistas pelos meus olhos. A capa do mês de dezembro da Club International tem uma conversa delirante com a capa da Hustler de fevereiro. Ao meu lado, a página central da Private de setembro me lança olhares fulminantes que até fariam Clovis Bornay rever seus apetites e desejos sexuais. KILOCURA!


Mui mui amabiles

Daniel e o mala do Leonardo é o som que toca nos speakers. A mesa de sinuca é uma verdadeira alucinação. Digão com o taco na mão parece um centurião da Roma antiga. Enquanto isso, Canisso, Fred e Rodolfo esperam a vez na mesa observando o vai e vem de suculentos pernis. O clima, por incrível que pareça, é tranquilo e alto astral. Na maioria dos bordéis desse mundão que Deus criou, a vibe é sempre carregada e envuduzada. No BH, além da decoração brega-chique, as garotas de programa são mui mui amabiles. Também, pudera: a média do soldo mensal das gurias gira em torno de 4 000 reais para a mais pobrezinha, e uns 15 000 pra top bombástica. Fora os presentinhos dos amantes, estilo carro importado, apê e viagens ao exterior.


Rodolfo

As libélulas e mariposas chegam junto na boa pra conversar. Um manjar interplanetário de nome Michelle acoplou na minha mesa. Papo vem papo vai, ela me explicou cheia de sedução que nos dois andares de cima do Bahamas existem diversas suítes. "Vamos nessa, faço um strip-tease que você nunca viu na vida." Fiquei completamente embaraçado. Ela complementou: "O que você acha da Vanessinha minha priminha (capa de outubro da Internacional) ir junto com a gente fazer uma susu?". Sacanagem, pegando pelo lado fraco masculino a tal da Michelle queria me enlouquecer e foder com a reportagem e meu casamento. O fotógrafo desta reportagem (Christian) havia desaparecido por mais de uma hora. Perguntei para o Canisso cadê o Christian. "Porra, brother, vi o cara saindo da sauna de roupão branco e subindo as escadas feito um míssil". Fui averiguar as suítes. Não achei o cara, mas vi quartinhos com espelhos por todos os lados. São mukifos kistchs bem parecidos com os hotéis de Amsterdã e Hamburgo. Até na privada existe um refletor de perequita.

Voltei para o meu assento próximo à mesa de bilhar. O mulherio vai se revezando pelas mesas. É inacreditável a quantidade e qualidade das beldades. O drinque predileto entre elas é o licorzinho 43 que sai 18 reais a dose. Cervejinha, my brother, está na faixa dos 10 cascalhos, e um hi-fi custa 25. Jogar um bilharzinho sai 5 contos cada 15 minutos. Ficamos acertando bola na caçapa por duas horas. Quando percebi, olhei o Fred e ele já dormia ao lado do Canisso. Christian havia aparecido com o seu indefectível roupão branco. Os salões do BH já estavam vazios. Sobreviviam dois pafúncios querendo arrastar três gaúchas angelicais para casa. O que sobrou na área era o batalhão dos Raimundos e a petulante e deliciosa Valéria, que ganhava todas as partidas de sinuca. Garçons e faxineiros limpavam as sobras do chão e ajeitavam cadeiras. Às 4h25 da madrugada pagamos as contas e voltamos feito anjinhos do pau oco para nossas respectivas casas. Cheios de sonhos eróticos e atarantados.


Revista Trip - Ano 12 - nº 69 - 04 - 99


terça-feira, 1 de setembro de 2009

Jornal do Comércio - Recife - Setembro de 1997


Raimundos detona no Skol Rock e faz a galera delirar

Já na entrada da arena do Skol Rock, montada no Pólo Pina, a grande quantidade de adolescentes vestidos com camisetas do Raimundos anunciava quem era a grande atração da noite do sábado. Um público fiel, fã da barulheira que o Raimundos fazem como ninguém, estava lá de guarda, sem muito interesse pelas outras bandas, só esperando os ídolos pisarem no palco. Quando isto aconteceu, a moçada, até então espalhada pela areia, aglomerou-se na frente do palco. A partir daí, foi só porrada, rodas de pogo e muita guitarra envenenada. Milhares de pessoas cantaram os refrões rosnados pelos Raimundos.

O show dos rapazes de Brasília foi uma lição para as bandas iniciantes, que se apresentaram no início da noite, concorrendo a uma vaga na final do Skol Rock, que acontece em São Paulo, no mês de novembro. Entre as principais falhas das concorrentes, estão dois ingredientes que o Raimundos têm de sobra: empatia com o público e presença marcante no palco. Durante a apresentação, os músicos conseguiram ganhar a platéia. A galera dança, canta e delira, num ritual bem conhecido e admirado pelos fãs do bom rock'n'roll envenenado.

Sem a mesma performance do Raimundos, mas com a tranquilidade de quem está tocando em casa, os pernambucanos da Mundo Livre S/A também se garantiram. Eles cantaram alguns dos sucessos da banda, como Musa da Ilha Grande, Mangue Bit, Samba Esquema Noise e A Bola do Jogo, que ganhou uma coreografia sensual das meninas, elogiadas pelo vocalista Fred Zero Quatro. O show da Mundo Livre foi o último da turnê Güentando a Ôia e trouxe algumas músicas do próximo CD, que deve ser lançado antes do final do ano. Para quem tiver pressa, a gravadora solta um single, que chega às lojas nas próximas semanas.

PRÊMIO - Além das atrações nacionais, Severinos Atômicos (segundo lugar no ano passado), Andaluza e seis bandas concorrentes também marcaram presença no palco do Skol Rock. As favoritas - Frank Jr. e Hanagorik - ficaram em primeiro e segundo lugar, respectivamente. Apesar do título e da torcida do público, a apresentação da Frank Jr. não foi tão marcante quanto a da Hanagorik, de Surubim. Os meninos do agreste têm presença marcante no palco e o vocalista se garante, com uma voz segura e afiada. A zebra da noite ficou com Los Caçadores Del Chaco. Apesar da boa apresentação, das letras divertidas e da boa afinação, os meninos de Fortaleza não foram classificados nem em quinto lugar.

Por Daiana Moura Barbosa e Marcelo Pereira.


Jornal do Comércio, Recife, 08 de setembro de 1997


terça-feira, 25 de agosto de 2009

Raimundos Curiosidades



Influências


Entre as bandas que influenciaram o som do Raimundos, entram em destaque os grupos Ramones e Dead Kennedys.



Torcida


Na banda, os rubro-negros estão em vantagem. Enquanto Rodolfo, Digão e Canisso são flamenguistas, apenas Fred, contrariando os outros, é vascaíno. Mas Rodox deixa claro que também é torcedor do Gama de Brasília.



Não pode faltar no camarim


Exigências feitas pela banda para o camarim no festival


Philips Monsters Of Rock 96:


- 36 Toddynhos;

- Cadeiras e sofás para 22 pessoas;

- Enorme quantidade de Gatorade sabor Tangerina.



Kelly Slater


Um dos fãs mais ilustres da banda é ninguém menos que o campeão mundial de surf Kelly Slater. Segundo Canisso, "um amigo nosso conheceu ele e mostrou o disco "Lavô tá Novo" e ele adorou".



Mais fãs ilustres?


Será que eles esperavam por isso? Primeiro, a banda Sepultura andou dizendo que gostaria de contar com a abertura do Raimundos nas suas apresentações no Brasil, ocorridas em 11/96. Depois, ao final do festival Monsters Of Rock, o vocalista do Iron Maiden, Blaze Bailey, retornou à Inglaterra levando um cd do grupo na Bagagem. "Desde que cheguei aqui ouço falar deles, já pedi para me arranjarem o disco", revelou o vocalista.



Nomes do segundo disco


Alguns nomes sugeridos para o segundo disco:


"Beleza!!", "Lavô Tá Limpo!", "Agora Vocês Vão Ver" e "Dedo Amarelo". O último, idéia do Rodolfo, ninguém gostou. "Ia ser um dedão com uma cara de chapado desenhada e o amarelo da resina como cabelinho" explica.


Nasceu I Saw You Saying


O segundo CD da extinta banda brasiliense Little Quail And The Mad Birds ("A Primeira Vez que Você me Beijou") inclui a música "Vencemos", feita por Gabriel (vocalista) e Rodolfo. Segundo Gabriel, "quando o Rodolfo veio pra São Paulo, mesmo já sendo famoso, não quis ir para um hotel e foi para minha casa. Uma noite, estávamos à toa e fizemos essa música". Naquela noite também nasceu "I Saw You Saying", música incluída no segundo álbum do Raimundos. "Gravamos as duas músicas em um gravadorzinho portátil só com as nossas guitarras, sem amplificador nem nada", recorda-se Gabriel.


Guiminha (Guilherme Bonolo)

Alguns fãs mais atentos, podem achar estranha a inclusão do nome do técnico de som Guiminha na parte de backing vocals, nas faixas "ao vivo" contidas no cd "Cesta Básica". Isso mesmo, Guiminha realmente participa de algumas músicas, através de um microfone localizado na sua própria mesa de som. Além dos backing vocals, ele também é o responsável pelos metais na música "Opa, Peraí Caceta!", utilizando um teclado para obter os sons.


Moicano

O Rodolfo cortou o cabelo no estilo "moicano", mas parece que ele não gostou muito e tirou alguns meses depois. Clique aqui para ver a foto.


O que é Só no Forevis?

O nome "Só no Forevis" (mais conhecido como bunda) é uma homenagem para o eterno "trapalhão" Mussum, pois ele ficou marcado por essas expressões com IS no final. Digão revela que quando criança era fã dos trapalhões.


Coleção do Mestre

O "mestre" Canisso é louco por coleção, ele tem coleções de:

Carros miniaturas, bonecos, tipo X-Men, Spider-Man, entre outros.
Jogos para computador e video-game.
Baixos.

Confusão

Em 99, antes do lançamento do cd Só no Forevis, o guitarrista Digão se meteu em uma confusão no condomínio onde mora. A versão do Digão seria que uma tal de Morena tivesse atropelado a Melissa (mulher do Digão) e fugido posteriormente. Então ele foi atrás dela e a Morena o atropelou também. O caso foi parar na delegacia.


Antes da fama

O Digão, antes de ser um raimundo, era motorista de caminhão e o Rodox já trabalhou como ajudante de um hospital.


Tatoos

O Rodox tem 20 tatuagens em todo o corpo.


Acústico

Em Agosto de 99 o Raimundos fez um acústico, chamado de "balada", na MTV. E nesse programa ficou claro a maior influência musical deles, pois eles tocaram 3 músicas do Ramones.


"Aquela"

Para quem não sabe a música Aquela, é uma cover. A música original é de uma das melhores bandas que já teve no Brasil (é uma pena que essa banda já acabou), Little Quail and the Mad Birds. E em alguns shows o Gabriel (ex-Little Quail, atualmente Autoramas) canta essa música junto com o Rodolfo.


Mosh

Na primeira e única vez em que o Fred resolveu dar um mosh (pular do palco pra platéia), na abertura de um show dos Titãs em São Paulo (94), caiu e bateu com a cabeça no chão, o que ocasionou um coágulo no cérebro.

Motos

Uma das paixões do Digão são as motos. Ele atualmente tem uma Yamaha V-Max, personalizada. O Digão e o Canisso sempre estão com alguma camiseta sobre motos.


Reportagem

Fred se chateava quando certas reportagens citavam que todos na banda fumavam maconha, pois o Fred diz que não usa drogas.


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Metal Head - Ano III nº 22 - Fevereiro de 1998


Raimundos - Porrada sonora!

O grupo de Brasilia chega ao quarto disco provando que ainda tem muita lenha para queimar. Confira tudo nas palavras do baterista Fred!

Como vcs chegaram ao título Lapadas do Povo?
Fred: Era uma coisa assim, que a gente sentiu que o som deste disco estava mais coeso, quem escutasse faixa a faixa iria receber uma lapada bem no meio do ouvido, na cara mesmo. E Lapadas para povo porque a gente vendeu muito disco, era para o povão mesmo, para a galera que compra o nosso disco.

Esse é o quarto disco?
Fred: Seria o quarto considerado em discografia da banda, mas na verdade ele é considerado como o terceiro de carreira. O Cesta Basica foi um projeto. Não foi um cd de carreira. Foi um projeto que a gente fez tudo aquilo que a gente queria, sem compromisso com nada, Ter que fazer música. Queríamos gravar umas coisas que a gente gostava de tocar, de outras pessoas, registrar uma coisa muito legal, que foi o Holywood Rock para a gente.

Mas o Cesta Básica vendeu bastante?
Fred: Ele acabou vendendo como um disco de carreira. Acho que deve estar na casa de duzentos e poucos mil.

Isso é bastante em termos de Brasil.
Fred: Mas a caixa foi limitada. A principio só iria vender 20 mil cópias, e acabou. Só que a gente não tem só 20 mil fãs. Então lançamos produtos separados, porque a caixa seria para quem tivesse condição, ou aquele fã mais louco que vai ter o negócio e falar "pô, eu sou fã mesmo, eu tenho a caixa". Mas ao mesmo tempo a gente colocou os produtos separados para vender separado, para quem quando tiver grana vai lá e compra. Agora, a verdade de início a gente não teve essa visão. É muito egoísmo nosso lançar só para 20 mil fãs. Então nós lançamos 20 mil caixas mas os produtos você encontra separado.

Como a banda está encarando o sucesso hoje?
Fred: A gente encara numa boa, não pensamos muito nisso, não. Nós somos um bom vendedor de disco, mas é estranho, só vivendo pra falar. Não muda nada. Tem gente que muda, mas não sei nem porque. Continua a mesma coisa.

Vocês já pararam pra pensar numa explicação porque vocês fazem tanto sucesso?
Fred: Não sei. Na época em que a gente apareceu tinha uma carencia muito grande de uma galera mais nova que de repente não viveu os anos 80, quando teve o primeiro boom do rock nacional, e tinha uma carência de alguma coisa nova para seguir junto com as pessoas que vinham dos anos 80. Eu acho que a gente deu muita sorte na época de estar no lugar certo, fazendo a coisa certa, na hora certa, e a gente apareceu. Acho que é meio por aí.

Mas vocês já estão com 4 discos mantendo o sucesso.
Fred: A gente está mantendo e está legal. É bom manter.

Sim, mas me diz uma banda que tem 3 discos que são sucesso total.
Fred: Skank

Não, estou falando de rock pesado!
Fred: Aí você me pega... (risos). Mas o sucesso deles é muito legal, porque é legítimo anos 90. A gente precisava acompanhar, eu acho que os anos 90 estava devendo bandas para acompanhar as bandas dos anos 80, saindo do aspecto rock pesado. Agora esse rock pesado eu realmente não sei.

Porque o Raimundos continua pancadaria total.
Fred: Nós fazemos o que gostamos. Eu lembro quando trocamos de gravadora e as pessoas falavam, "xi, eles foram pra Warner, agora fodeu, os caras vão ficar fazendo musiquinhas para agradar". Só que aqui na Warner nunca teve isso. Até as músicas de sucesso que a gente fez, é porque tinham alguma coisa a ver com a gente. Tem esse lado brincalhão mesmo, desde o primeiro disco, numa gravadora independente.

É, dá para você perceber que não é uma coisa assim comercial, feita pensando no sucesso. É do jeito que a música saiu.
Fred: Isso é muito legal. Nós nunca tivemos problemas com nada. A única coisa que o nosso diretor artístico pede é para que sejamos sempre Raimundos.

E com essa bagagem de estrada já tem um estilo Raimundos? Deixando as influências de lado, já tem alguma coisa própria?
Fred: Deve ter. Eu sou suspeito para falar porque estou dentro da banda. Quando estava voltando de Los Angeles, eu coloquei a fita do novo disco para uma molecada escutar no walkman e eles falaram: "Pô, é a cara de Raimundos". Eu acho que a gente tem uma coisa legal, por mais que uma música possa parecer com uma do Ramones, quando começa a cantar voce percebe que é Raimundos. A gente tem uma cara própria até quando tem as influências na música.

De repente vocês estão sendo até escolas para bandas que estão começando?
Fred: Tem muita banda que até fala isso. Eu recebo muita demo-tape que o pessoal fala geralmente que se espelhou na gente. E isso é legal, é uma coisa muito gratificante.

E como é fazer som pesado com letras sem censura e conseguir com que as músicas toquem nas rádios?
Fred: Eu não sei. Eu acho que a mentalidade mudou um pouco. Desde o cara que faz a programação da rádio, mudou um pouco. Hoje em dia é mais facil. Eu lembro que no primeiro disco da gente foi muito dificil. Emplacamos a musica Selim, que todo mundo fala que é comercial... A música pode ser comercial, mas a letra, nunca! Nós fomos perseguidos até pela polícia federal, em Santo Angelo, no Rio Grande do Sul. Acho que é porque a gente falou de ânus e vagina. Se a gente falasse boceta e cu, ninguém iria nos perseguir. Mas falamos o nome científico da coisa e deu merda. Por que estão perseguindo o Planet Hemp? Eles distribuem maconha nos shows? Não distribuem, eles estão lá cantando. Vai quem quer. São aquelas coisas que você não entende. E mesmo assim elas tocaram nas rádios. É muito louco se você for pensar nisso. Temos tudo aquilo para não tocar nas rádios mas mesmo assim toca. É ponto para quem faz esse tipo de som. O primeiro disco da gente foi dificil. Uma coisa que melhorou muito nossa música tocar em rádios foi quando o Mamonas Assassinas surgiu. Eles faziam quase a mesma coisa e conquistaram a criançada, então não tinha como não tocar. E outras bandas que de repente tem letras mais picantes também conseguiram tocar nas radios.

Eu me lembro que no primeiro disco vocês estavam dormindo em hotel pulguento e essas coisas. E como é que está hoje? Já está todo mundo com o boi na sombra?
Fred: A vida melhorou com certeza. Mas não está assim, não. Rico a gente ainda não ficou. Mas assim, eu tenho a minha vida, ainda não tenho apartamento próprio, ninguem no Raimundos tem apartamento proprio ainda. Mas tenho um carro que é novo, alugo um apartamento, moro num lugar legal. Mas nada que possa dar o luxo de falar "na hora que eu quiser parar de trabalhar e abrir um comércio", aí já me limita demais. Estou vivendo bem. Super bem só quando eu comprar o meu apartamento. Aí vou ter onde morrer, um lugar meu. É gratificante voce fazer o que gosta e conseguir sobreviver disso. Agradeço a Deus por isso.

O Raimundos é uma das poucas bandas de rock pesado que tem uma estrutura legal para shows.
Fred: O mercado de show é muito dificil. Se voce não tiver alguém por traz para maquinar essa parte, fica difícil. E desde o início nós tivemos pessoas que queriam nos ajudar. Até hoje, nossa agência está sempre correndo atrás. A gente é uma banda de estrada, muito do que a gente conquistou foi na estrada. Dava a cara a tapa. Fizemos uma turnê duas vezes no nordeste enquanto que tinha banda que não ia lá há cinco anos. Chegamos a ir de van de São Paulo até a Bahia, e ficar pingando, com o equipamento atrás, neguinho dormindo um escorado no outro, e depois fazer Fortaleza, Belem, de ônibus de linha, 24 horas de viagem, sem saber se chegando lá o show iria acontecer realmente. Acho que é por isso que conseguimos fazer uma turnê legal hoje em dia, porque a gente nunca ficou parado esperando as coisas acontecerem. É todo mundo novo, cheio de saúde, vai ficar sentado engordando? Apesar que eu estou engordando até na estrada, mas ficar sentado só engordando é fogo.

Vocês já tocaram com várias bandas internacionais. Já aconteceu de vocês serem fãs de uma banda e os caras deram uma de rock star?
Fred: Acho que rolou uma coisa com o pessoal do Suicidal. Um roadie chegou e pediu autógrafo em todos os CDs, e no meio tinha um CD pirata gravado na Itália, e o Mike Muir se recusou a autografar e foi até meio grosso. Deve ter sido só isso, mas não tiro a razão dele ter ficado puto. Um que eu pensei que fosse super antipático, e não é, é o vocalista do Smashing Pumpkins. O cara ficou batendo papo, e eu sempre pensei que fosse uma bicha, chatíssima. (risos)

Você vê algum tipo de futuro para as bandas brasileiras de metal?
Fred: Ficam dizendo que o metal morreu... O metal não morreu porra nenhuma. Agora, é um mercado difícil. A gente tem um costume muito estranho de som da época, do som da moda. Mas essas bandas sobrevivem. Uma banda que eu não entendo é o Dorsal Atlântica. É do caralho, acho que se der uma chance para o pessoal escutar, tudo muda.

Você tem saudades de Brasília?
Fred: Tenho, eu fui criado lá. Na minha época era muito legal, não sei como é hoje para uma criança ser criada lá. Eu fui criado largado, era assim com todo mundo da minha época. Tinha os prédios, a galera, ficava brincando o dia inteiro, e quando a mãe queria que subissemos, dava um grito da janela.

E você tem saudades dos shows undergrounds de lá?
Fred: Tenho. Tudo o que foi bom e é bom a gente lembra com carinho. Tudo foi válido, Brasília é uma cidade muito legal. Pena que a imagem que passa de Brasília é que lá só tem político ladrão, mas as pessoas esquecem que os políticos que vão roubar lá não são só de lá, eles vem do país inteiro roubar lá. Aí quem leva a culpa é quem mora lá. Vem político de todos os lados roubar lá, e todo brasiliense é político ladrão? A gente escutou isso a infância inteira.

E para finalizar qual seria a mensagem do Raimundos hoje?
Fred: O recado da gente é muito rock'n'roll, fazer o som e mostrar, matar a cobra e mostrar o pau. Eu quero ver cada vez mais a galera fazendo um som.


Metal Head - Ano III nº 22 - Fevereiro de 1998


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Internota 89 - 08/07/1999


Raimundos pagodeiros

Os Raimundos lançaram disco novo e incorporam o visual pagodeiro. É o jeito do grupo chamar a atenção para a podreira que rola na mídia, que classifica suas músicas como obscenas, enquanto abre espaço para tiazinhas e caras que "falam um monte de besteiras, passando mensagens deturpadas pra galera" explicou Rodolfo, vocalista da banda. Para ele, as rádios não tem parâmetros: criticam o trampo dos Raimundos porque eles são feios. Daí a brincadeira com o visual do pagode. "Eles são bem vestidos, bem cuidados, quase bonitos" manda Rodolfo. Já dá pra conferir tudo isso no novo álbum "Só no Forevis", começando pela capa. Prato cheio pra quem estava sentindo falta da zoeira do grupo.


Internota 89 - 08/07/1999


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Raimundos em 1990



Uma verdadeira pérola, vinda diretamenteo de 1990 (como está escrito na foto). Na esquerda, Rodolfo, ainda sem os dreads, na frente, sentado, está Cristiano Telles, autor de Selim, de braços cruzados está Digão (magro!!11), a mulher ao lado dele é a mulher do mestre Canisso (que está atrás, olhando para a esquerda). Atrás do casal da esquerda (de óculos e topete) está Zé Ovo, do Little Quail and the Mad Birds.


Clique duas vezes na foto para ve-la em tamanho original.


Capricho - Outubro de 1997


Pesados e divertidos!

Quando encontramos os Raimundos para saber do novo disco do grupo, "Lapadas do Povo", descobrimos que eles são bem mais calmos do que suas músicas. Digão, guitarra, Fred, bateria, Rodolfo, vocal e Canisso, baixo, estavam sem a menor pressa mas com muita fome. A grande discussão era se a baguete do metro seria de presunto ou só de queijo. Estômagos satisfeitos, eles disseram que as músicas do novo CD seguem o mesmo estilo dos outros discos, mas com muito mais barulho. Curiosidade: Rodolfo fala 248 palavras em um minuto na primeira música do CD.


Capricho - Outubro de 1997